quinta-feira, 12 de março de 2009

Onomatopeia alterbela

Porque é que é tão fácil vermos a beleza que há nos outros e tão difícil de vermos a que há em nós?

Porque é que é tão fácil os outros verem a beleza que há em nós e tão difícil de verem a que há neles mesmos?

Mas, pensando bem, também há aquelas pessoas que devem ter muita beleza escondida, mas que, por muito que a gente procure, não a consegue descobrir em lado nenhum... Também depende muito do cheiro que elas emanam, é verdade...

terça-feira, 10 de março de 2009

Onomatopeia emética

Gasta uma pessoa 50 cêntimos num livro para ler merdas como estas:

"As asas desdobram-se
lentas
desde os ombros

Estendem-se, vacilam,
e vão tocar-te devagar
o pénis"

"Bebo-te a boca
com o seu manso sabor
a tangerina

Gulosamente
a comer o mel
no favo da abelha"

"A canela dos teus ombros
que lambo,

à mistura com
o açúcar
do teu umbigo?"

E vou dar-vos umas dicas para identificarem a autora destes poemas anedóticos. Tem três nomes: o primeiro é Maria, o segundo é Teresa e o terceiro é Horta...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Onomatopeia plástica #73

(I) rape (me) (2009)
Fotografia
Coleção do autor

Creative Commons License

Onomatopeia descobridora

E que nem um Vasco da Gama contemporâneo em busca de novos mundos sensoriais, a maior descoberta do dia de hoje foi o chocolate belga com sementes de sésamo, girassol e abóbora, cuja discreta embalagem se apresenta abaixo.

Foi descobrimento milagroso contra o torpor cerebral durante uns efémeros instantes...

Desejam-se ardentemente outros achados cujos efeitos sejam mais prolongados!


domingo, 8 de março de 2009

Onomatopeia plástica #72

A hanging in front of the sun (2009)
Fotografia
Coleção do autor

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sexta-feira, 6 de março de 2009

Onomatopeia citável

Às vezes queríamos dizer muita coisa que não conseguimos dizer, queríamos impulsionar a roda do exorcismo verbal para concretizar num sistema coerente toda a parafernália desorganizada do que nos corre nas sinapses neuroemocionais. Às tantas, descobrimos que afinal já houve quem sistematizasse as nossas ansiedades e inquietações, ainda por cima atribuindo frequências sonoras e diferenças tonais a cada uma das sílabas. Citamo-los então, com as devidas ressalvas e com a consciência que as intenções originais podem ser bastante dissonantes da interpretação que delas fazemos...



"If you walk away I'll walk away
first tell me which road you will take
I don't want to risk our paths crossing some day
so you walk that way, I'll walk this way

and the future hangs over our heads
and it moves with each current event
until it falls all around like a cold steady rain
just stay in when it's lookin' this way

and the moon's laying low in the sky
forcing everything metal to shine
and the sidewalk holds diamonds like a jewelry store case
they argue "walk this way," "no, walk this way"

and Laura's asleep in my bed
as I'm leaving she wakes up and says
"I dreamed you were carried away on the crest of a wave
baby don't go away, come here"

and there's kids playing guns in the street
and one's pointing his tree branch at me
So I put my hands up I say:
"Enough is enough,
If you walk away I walk away."
(and he shot me dead)

I found a liquid cure
for my landlocked blues
it will pass away
like a slow parade
it's leaving but I don't know how soon

and the world's got me dizzy again
you'd think after 22 years I'd be used to the spin
and it only feels worse when I stay in one place
so I'm always pacing around or walking away

I keep drinking the ink from my pen
and I'm balancing history books up on my head
but it all boils down to one quotable phrase
"If you love something give it away"

A good woman will pick you apart
a box full of suggestions for your possible heart
But you may be offended, and you may be afraid
but don't walk away, don't walk away

We made love on the living room floor
with the noise in the background from a televised war
And in the deafening pleasure I thought I heard someone say
"If we walk away, they’ll walk away"

But greed is a bottomless pit
And our freedom's a joke, we're just taking a piss
And the whole world must watch the sad comic display
If you're still free start runnin' away
'cause we're comin' for ya!

I've grown tired of holding this pose
I feel more like a stranger each time I come home
So I'm making a deal with the devils of fame
Sayin' let me walk away, please

You'll be free child once you have died
from the shackles of language and measurable time
And then we can trade places, play musical graves
till then walk away walk away walk away walk away

So I'm up at dawn, putting on my shoes
I just want to make a clean escape
I'm leaving but I don't know where to
I know I'm leaving but I don't know where to"

quarta-feira, 4 de março de 2009

Onomatopeia diz-que-diz

Pequenas pérolas emitidas/captadas durante as minhas jornadas laborais:

A língua devia ser um bicho.

Tudo na vida é infetocontagioso.

Je suis uma badalhoca.

E se eu vomitasse uma bola de pelo agora?

Onomatopeia plástica #71

Most of us are always on the watch (2009)
Fotografia
Coleção do autor

segunda-feira, 2 de março de 2009

Onomatopeia biverbal

Renascer dói....

domingo, 1 de março de 2009

Onomatopeia plástica #70

Transmission overflow (2009)
Fotografia a preto e branco
Coleção do autor

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Onomatopeia plástica #69

That's the way it is (2008)
Fotografia a preto e branco
Coleção do autor

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Onomatopeia par-delà les nuages

Muito, muito, muito, muito, muito de tudo em tão pouco tempo:

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Onomatopeia plástica #68

Paralelas assimétricas (2009)
Fotografia a preto e branco
Coleção do autor

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Onomatopeia quase plástica censurada

here / unmovable / brightfully imposing / no excuses / not afraid of standing out / unblender = bliss is a chameleon on a white Spanish wall

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Onomatopeia instrumentalizada

Às vezes só precisamos dos instrumentos certos para conseguirmos enxergar para lá do que nos está imediatamente visível, ainda que o que nos se revele sejam estados hibernantes ou invernais...


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Onomatopeia sintética

Estas continuam a ser as minhas verdades...

E há momentos em que, de tanto bater, o coração para, momentos em que as pessoas normais têm algo de especial, momentos em que a respiração é ofegante sem sinal de cansaço, momentos em que a cadência do som embala, momentos em que a angústia se aceita como se fosse um órgão vital, momentos em que o esquecimento parece solução universal, momentos em que a incerteza é finitamente certa, momentos em que os pensamentos divagam pelos caminhos menos acidentados, momentos em que o tempo nos acolhe no compasso, momentos em que a grandeza dos outros não invalida a nossa vastidão, momentos em que as cores são vivas nas horas mortas, momentos em que o corpo dói como se a dor apelasse à confirmação da fisicidade, momentos em que a palavra é abafada pela certeza de que o gesto tem primazia, momentos em que o físico não responde ao metafísico, momentos em que o silêncio se volta contra nós mas não destrói, momentos em que o invulgar ameaça ser um contínuo quotidiano, momentos em que a aliteração dos gestos limita o caos da impaciência, momentos em que a improdutividade gera riqueza e a riqueza é apenas nominal, momentos em que os passos em volta são os passos concêntricos, momentos em que o deus das pequenas coisas zela temporariamente pelas grandes e tudo parece maior dentro da pequenez a que tudo está sujeito...

A haver pele, era a tua. A haver rosto, era o teu. A haver sinais, eram os teus. A haver carne, era a tua. A haver cabelos, eram os teus. A haver barba, era a tua. A haver pescoço, era o teu. A haver olhos, eram os teus. A haver peito, era o teu. A haver sorriso, era o teu. A haver lágrimas, eram as tuas. A haver gritos, eram os teus. A haver voz, era a tua. A haver braços, eram os teus. A haver dedos, eram os teus. A haver mãos, eram as tuas. A haver joelhos, eram os teus. A haver pernas, eram as tuas. A haver gestos, eram os teus. A haver sons, eram os teus. A haver silêncio, era o teu. A haver corpo, era a junção da tua pele, do teu rosto, dos teus sinais, da tua carne, dos teus cabelos, da tua barba, do teu pescoço, dos teus olhos, do teu peito, do teu sorriso, das tuas lágrimas, dos teus gritos, da tua voz, dos teus braços, dos teus dedos, das tuas mãos, dos teus joelhos, das tuas pernas, dos teus gestos, dos teus sons, do teu silêncio...

Gosto das manhãs contigo. Gosto dos atrasos propositados, gosto das tentativas de ignorar o despertador. Gosto de te ouvir passear pela casa enquanto me preparo para sair... Mesmo que não digas nada, mesmo que saiba que ainda estás pouco vigilante, gosto de te ouvir os passos, os sons guturais, o tilintar da loiça que manuseias, os armários que abres e fechas. Gosto de me cruzar contigo, mesmo que não troquemos palavras, porque o sono ainda é mais forte do que toda a vontade de falar. Gosto de te ver de costas enquanto te lavas, enquanto te barbeias, enquanto analisas os pormenores do teu rosto no espelho. Gosto da tua falta de sorriso matinal, do teu andar cambaleante, do teu ar de criança contrariada. Gosto dos teus beijos fugidios, porque achas que ainda não estás suficientemente higiénico para me fazeres respirar o teu ar. Gosto de ouvir a água correr enquanto tomas banho, e de saber pelos sons quais os gestos que repetes, quais os movimentos do teu corpo. Gosto de acordar com a tua presença, com o teu cheiro, com as tuas mãos, com as pernas que se entrelaçam de tal modo que muitas vezes não sei onde estou no meio de tanto corpo que somos. Gosto de sair quando ainda não estás pronto, quando ainda sei que vais demorar algum tempo para sair, que sairás algum tempo depois quando eu já estiver a muitos minutos de ti. E gosto de ter na minha memória toda esta rotina matinal, que esqueço durante o dia para que todas as manhãs tenham a novidade promissora das repetições que desejamos...

Quero ver os jacarandás contigo agora, quando derem flor e depois de terem perdido todas as folhas, todas as flores, todos os ramos, e apenas restarem os indícios das raízes que os alimentaram. Seremos talvez menos longevos que as árvores, mas poderão ser elas as testemunhas do nosso enraizamento... Porque elas sabem o que é beber do solo e não o esgotar, o que é usar a luz do sol e não obscurecer o que as rodeia...

Metade de um ano de trinta e um anos... Parece pouco mas aos poucos em seis meses aprende-se por vezes mais do que em seis anos, mesmo que pareça que já temos tudo aprendido e que nada de novo haja nos dias e nas noites que hão de vir. Mesmo que o cansaço nos vença e as palavras façam ricochete nas paredes que por vezes nos dividem, em retrospetivas paralelas e momentaneamente divergentes, o tempo parece querer dizer que a hierarquia das importâncias individuais se encaixa em todas as teorias da relatividade e que não há teorias mais importantes que a nossa persistência no que cremos e no queremos construir para além das nossas individualidades incontornáveis. Contornam-se as insensatezes, as imperfeições, as memórias mais acutilantes e retorna-se àquele ponto em que estávamos antes de sermos campo de batalha, antes que a quantidade dos despojos seja em demasia para as nossas forças e antes que desistamos de uma batalha que pode ter mais de um vencedor. Depois do armistício, reabrem-se as fronteiras, porque nestas nações não há termos de residência e a identidade é criada através das viagens que fazemos sem bagagens nem paragens obrigatórias, ainda que tenhamos de atravessar cadeias montanhosas e vales onde o eco pode confundir a nossa orientação... E depois de sermos turistas nos espaços que não são os nossos, regressamos a uma terra em que os sons, as paisagens, o horizonte, a luz e a sua ausência nos parecem mais familiares e descansamos para que as próximas viagens sejam apenas aquelas em que não somos mercenários nem carregamos armas que não sabemos manejar...

E ontem toda a gente eras tu, todas as ruas tinham a tua presença, todos os lugares tinham a memória de ti comigo, porque ainda estás em todo o lado e todos os lados te têm como se ainda estivéssemos presentes um com o outro... Procurava-te e fugia, sem saber se ajudaria olhar para ti e ter a certeza de que as tuas certezas são inabaláveis e que já sou apenas alguém que pontuou uns meses nos calendários da tua vida. Entre todas as multidões visíveis, a tua invisibilidade intranquilizava-me e era mais uma prova de que há silêncios que se conseguem ver e se concretizam na existência dos outros à minha volta e na tua inexistência entre eles...

Doem-me as palavras involuntárias e provocadas pelo fenómeno metafísico da reação à (re)ação... Doem-me os atos impensados e os pensamentos atuais. Doem-me os olhos por não os conseguir ter fechado depois da fuga irrefletida. Doem-me as últimas sílabas do ataque e as primeiras que não foram pronunciadas. Doem-me as efemérides que já não vão ser e a coleção de imagens das que já foram. Dói-me o que foi resgatado à pressa e que não poderá ser redistribuído. Dói-me o que foi escrito numa hora e contrariado em horas que vieram pouco depois. Doem-me as vozes fora de tom e o tom da agressão distante. Dói-me tudo...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Onomatopeia (e)spa(s)módica

Se o spam fosse todo assim, com estes laivos geniais de poesia erótica, desativava já o filtro de correio não solicitado do meu programa de e-mail!


"Assunto: Pornografia raivosa em Portugal

Só nós temos portuguesas loucas que chupam pénis e praticam sexo até ao estado exaustivo. Suas gargantas e traseiras gemem como carroças rangentes nas ruas de Lisboa. Putas matriculadas e moças inocentes, alunas e professoras. Temos tudo para a alma."

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Onomatopeia ceguinha

Durante anos vi esta frase pintada nas paredes de um armazém ali para os lados da Rive Gauche tejana e há alturas em que percebo muito bem o que o autor de tal sentença quis dizer:



UMA PANCADA NOS OLHOS FAZ VER

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Onomatopeia cosmovisionária

E se o mundo fizesse sentido e se o sentido viesse em forma de música, então ele seria assim: a perfeição dos tempos, a perfeição dos sons, a perfeição da melodia, a perfeição do compasso matemático... E como as palavras não chegam para descrever tudo, cabe à música os restos que faltam à cosmografia verbal...



J. S. Bach - Variações Goldberg - Aria (interpretado por Glenn Gould)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Onomatopeia televisiva

Algumas razões, que eu esqueço frequentemente, para não ligar o aparelho televisor:

Tyra ri, Tyra brinca, Tyra dança, Tyra não para quieta.

É bom quando nos sentimos bem.

Eu gosto do verde porque me faz sentir viva.

Eu gosto do vermelho porque me faz o coração bater.

Os seus cabelos estão estragados porque perderam o seu cimento natural.

Os americanos vivem de acordo com um direito que Deus lhes deu [...] que é o que cada americano tem de perseguir a liberdade.